CERIMÔNIA DE INAUGURAÇÃO DO BUSTO EM HOMENAGEM AO PATRIARCA
JOÃO BATISTA FERREIRA DE MENDONÇA
Vila São Vicente – Anápolis, Goiás
23 de junho de 2026
Senhoras e senhores,
representantes da comunidade,
membros da família Ferreira de Mendonça,
descendentes desta árvore genealógica fecunda,
moradores da querida IGREJINHA - Vila São Vicente,
amigos e amigas.
Há dias que pertencem ao calendário.
E há dias que pertencem à alma.
Hoje é um desses dias.
Hoje, 23 de junho de 2026, o tempo parece abrir uma janela rara entre o ontem e o agora.
Hoje, o calendário nos devolve um encontro profundamente simbólico.
Porque foi exatamente em um 23 de junho, o 23 de junho de 1888, o memorável ano dos três oitos, como gostava de repetir João Batista Ferreira de Mendonça, sobre o ano em que nasceu, cuja memória nos reúne nesta tarde.
E como se a própria história tivesse desejado organizar este instante, estamos na véspera de São João, santo de sua devoção, celebrado com alegria, fogueira, fé, encontro e partilha — tradição que ele ajudou a plantar nestas terras e que atravessou gerações, tornando-se parte viva da cultura desta comunidade.
Não estamos aqui apenas diante de um busto.
Não estamos aqui apenas diante do bronze, da forma ou da pedra.
Estamos diante de algo maior.
Estamos diante da memória.
Estamos diante da gratidão.
Estamos diante do reconhecimento de um gesto tão grande que o tempo não conseguiu apagar.
Porque existem pessoas que acumulam riquezas.
Outras constroem patrimônios.
Mas há seres humanos raros — profundamente raros — que compreendem que o maior patrimônio que alguém pode deixar não é aquilo que guarda para si.
Mas aquilo que oferece aos outros.
E foi exatamente isso que fizeram João Batista Ferreira de Mendonça e sua esposa, Ana Ferreira da Conceição.
Hoje, nesta cerimônia, reverenciamos um homem.
Mas também reverenciamos uma mulher.
Porque não existe saga construída sozinho.
Não existe patriarca sem matriarca.
Não existe árvore sem raiz.
E esta árvore foi profundamente generosa.
O ventre de Dona Ana Ferreira da Conceição gerou quinze filhos.
Quinze vidas.
Quinze caminhos.
Quinze ramos que fizeram nascer esta grande descendência que hoje aqui se reúne, trazendo nos traços do rosto, nas lembranças e até nos gestos, vestígios de uma história que continua viva.
Cada filho.
Cada neto.
Cada bisneto.
Cada descendente aqui presente é parte dessa continuidade silenciosa do amor, do trabalho e da coragem de um casal pioneiro.
E talvez seja impossível olhar para esta família sem imaginar a dimensão da força de uma mulher que, ao lado de seu companheiro, ajudou a erguer não apenas uma casa, mas um mundo.
Por isso, nesta tarde, Dona Ana também merece todo louvor, todo respeito, toda reverência e toda emoção de agradecimento.
Porque foi ela, ao lado de João Batista, quem ajudou a escrever esta história.
E toda grande história começa em algum lugar.
Esta começou muito antes da Vila São Vicente.
Muito antes de Anápolis.
Muito antes da Igrejinha.
Começou nas montanhas de Minas Gerais.
Começou em Belo Vale, terra histórica próxima a Belo Horizonte.
Começou na antiga Fazenda Boa Esperança, pertencente ao pai de João Batista — lugar que hoje se converteu em patrimônio da memória mineira.
Quem poderia imaginar que daquela fazenda, daqueles horizontes montanhosos, daqueles caminhos antigos de Minas, partiria uma família destinada a deixar marcas profundas no coração do Centro-Oeste brasileiro?
Era o ano de 1939.
Anápolis ainda era uma cidade jovem.
Carregava na memória o antigo nome de Santana de Antas.
Poucos anos haviam se passado desde a chegada da Estrada de Ferro Goiás, inaugurada em 7 de setembro de 1935, trilhos que transformariam para sempre o destino econômico, urbano e humano desta região.
E foi pelos caminhos do trem que eles vieram.
É impossível não imaginar aquela cena.
A fumaça da locomotiva.
O apito do trem.
As malas.
As crianças.
As esperanças.
O olhar de quem deixa para trás uma terra amada sem saber exatamente aquilo que encontrará adiante.
Vieram de trem.
Vieram com coragem.
Vieram carregando sonhos.
Vieram trazendo filhos, fé e futuro.
E talvez eles próprios ainda não soubessem.
Mas dentro daquele trem também viajava uma comunidade inteira que ainda nem existia.
Viajava uma vila.
Viajava uma história.
Viajava um destino coletivo.
Ao chegarem a estas terras, instalaram-se nas regiões da Fazenda Cabeceira do Retiro e da Fazenda Sozinha, iniciando um novo ciclo de trabalho, pertencimento e construção.
Mas Deus — ou a história — ainda reservava algo maior para eles.
Então veio o gesto fundador.
O gesto que muda destinos.
O gesto que transforma chão em pertencimento.
O gesto que transforma espaço em comunidade.
No ano de 1945, há 81 anos, João Batista Ferreira de Mendonça e Ana Ferreira da Conceição, casados em comunhão de bens, realizaram aquilo que hoje podemos chamar, sem exagero, de um ato civilizatório.
Doaram terras do próprio patrimônio à Conferência São Vicente de Paulo, padroeira Nossa Senhora da Conceição, então presidida por Jesus Duarte Alves, esposo de Paula Ferreira de Mendonça, filha do casal.
E é importante compreender o significado profundo desse gesto.
Eles não doaram sobras.
Não doaram aquilo que não servia.
Doaram parte do próprio patrimônio.
Doaram futuro.
Porque há pessoas que tomam terras.
Mas há pessoas extraordinárias que doam terras para que vidas floresçam.
E foi assim que nasceu a Vila São Vicente.
Uma comunidade pensada.
Uma vila organizada.
Uma visão de futuro.
Aqui havia quarteirões.
Aqui havia terrenos destinados ao bem comum.
Espaço para escola.
Espaço para igreja.
Espaço para convivência.
Espaço para o futebol — porque toda comunidade precisa de juventude correndo atrás de sonhos.
Tudo aquilo que um povo necessita para criar raízes.
Tudo aquilo que permite a uma comunidade florescer.
Mas antes mesmo da vila consolidada, surgiu um símbolo.
Uma pequena capela.
A querida Igrejinha.
Construída para o casamento de Esmeraldina Ferreira de Mendonça, filha do casal.
Talvez ninguém imaginasse que aquela pequena igreja, erguida para celebrar o amor de uma filha, acabaria se tornando o coração espiritual de toda uma comunidade.
Ao redor dela nasceram ruas.
Casas.
Famílias.
Festas.
Procissões.
Batizados.
Casamentos.
Lutos.
Esperanças.
Memórias.
E a vila passou a ser conhecida carinhosamente por aquilo que permanece até hoje no coração do povo:
A Igrejinha.
Mais tarde, veio uma capela maior.
Uma construção simples e bela em estilo Art Déco do interior.
Feita com tijolos sólidos da antiga Vila Fabril.
Coberta com telhas francesas.
Com piso semelhante ao da histórica estação ferroviária de Anápolis.
Uma arquitetura singela, mas profundamente cheia de significado.
Era testemunha silenciosa da fundação desta comunidade.
Infelizmente, como tantas vezes acontece com a memória, ela foi destruída.
E talvez isso também nos ensine algo.
Os edifícios podem cair.
As paredes podem desaparecer.
Mas a memória resiste.
A história permanece.
E aquilo que foi construído pelo amor não desaparece.
Porque permanece nas pessoas.
Permanece na oralidade.
Permanece no sentimento coletivo.
Permanece nos filhos.
Permanece nos netos.
Permanece no povo.
E assim a Vila São Vicente cresceu.
Anápolis cresceu.
A cidade expandiu seus limites.
Incorporou esta região ao seu tecido urbano.
Chegou perto do Distrito Agroindustrial.
Aproximou-se das divisas.
Transformou-se numa das cidades mais importantes do Centro-Oeste.
Cidade de clima ameno.
Cidade elevada.
Mais de mil metros acima do mar.
Cidade de águas limpas, de nascentes abundantes, de rios que correm para alimentar bacias maiores — águas que seguem para o Corumbá, o Paranaíba, o Meia Ponte, o Paraná e, depois de longas viagens, encontram o mar.
Talvez exista nisso uma metáfora bonita.
Assim como as águas daqui seguem adiante alimentando outros rios, também os gestos humanos seguem alimentando o futuro.
Um gesto de 1945 ainda alimenta vidas em 2026.
Um ato de generosidade continua produzindo pertencimento.
Um casal continua morando na memória de um povo.
E hoje, ao inaugurarmos este busto, fazemos mais do que homenagear um homem.
Fazemos um pacto com a memória.
Dizemos às novas gerações:
Não esqueçam de onde vieram.
Não esqueçam quem plantou antes.
Não esqueçam aqueles que compreenderam que construir comunidade é uma das formas mais bonitas de amar.
Que este busto seja um professor silencioso.
Que as crianças perguntem:
Quem foi João Batista Ferreira de Mendonça?
E que alguém responda:
Foi um homem que sonhou antes de todos.
Foi um pioneiro.
Foi um homem de fé.
Um homem devoto de São João.
Um homem que entendeu que a terra encontra sua maior dignidade quando se torna lugar de vida.
E que alguém também diga:
Ao lado dele caminhava Ana Ferreira da Conceição, mulher forte, mãe de quinze filhos, matriarca desta grande árvore humana, cuja coragem e amor ajudaram a tornar tudo isso possível.
E agora, neste instante simbólico, às vésperas de São João, no mesmo dia em que nasceu aquele a quem homenageamos, permitamos que a memória retire seu véu.
Porque um povo sem memória perde o caminho.
Mas um povo que honra seus pioneiros fortalece suas raízes.
Que se revele este rosto.
Que se revele este símbolo.
Que se revele esta gratidão.
E que fique oficialmente inaugurado o busto de João Batista Ferreira de Mendonça, em homenagem também à memória de Ana Ferreira da Conceição, casal fundador de um gesto de amor comunitário cuja história continua viva na alma da Vila São Vicente, a eterna Igrejinha de Anápolis.
Muito obrigado.
AgênciaECCOM🎥🎬🎼RedeCCom
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